Vagner Godoi

 

Sobre / Estética do Funcionamento

Vagner Godoi, 32 anos, São Paulo dove vive e lavora. Concluiu o mestrado em História da Arte pelo PGEHA/ USP em 18 de dezembro de 2008, defendendo a dissertação máquinas que se exibem + máquinas funcionando (leia e faça o download no Scribd).

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A Estética do Funcionamento, como uma proposta para a Arte de Agora, fala da interconexão e da diagramação de Objetos. Já não importa saber se a composição é da ordem da Imagem Poética, do Signo, da Tag, do Link, da Máquina, da Colagem, do Abstrato, da Figura, do Objeto-Técnico, do Objeto-Mercadoria, do Objeto-Signo, da Construção, do Ready-Made, da Coisa, da Matéria, do Sujeito, do Personagem, do Ponto Luminoso, da Idéia, da Máquina. Não deveria haver privilégio de nenhum sobre o outro. Porque tudo isso são Objetos que funcionam na arte, fazem sentido em uma História (Projeto Poético, Obra de Arte específica, Constelação).

O Funcionalismo

Fixar a atenção em um sistema mecânico é característica da filosofia natural do século XVII e primeiro passo para a criação de um sistema, o método científico. A anulação das experiências individuais fez com que a ciência possibilitasse o desenvolvimento da máquina, tendo como aliados os interesses econômicos e militares. A tese do Funcionalismo Industrial é formulada com base na idéia de que o objeto possui beleza no momento em que sua forma é a expressão manifesta de sua função. O movimento da racionalidade, objetividade e funcionalidade da máquina, até então predominantes no ambiente industrial, em direção à nova percepção do artista é o mesmo que volta de novo para a máquina, agora cotidiana, das ruas e das casas, do Design e da Arquitetura do Estilo Internacional.

A Estética da Máquina

A partir disto foi definido e propagado, pelas vanguardas racionalistas principalmente, uma opinião de que a inspiração autêntica de nosso tempo dar-se-ia pela atribuição de valores e qualidades da manifestação imediata da potência de uma máquina. A novidade do termo Estética da Máquina, lançado por Theo van Doesburg em 1921, se dá menos por seus significados do que pela criação de um termo para abarcar a qualidade encontrada na maioria das Obras, movimentos e artistas de vanguarda do começo do século XX: a qualidade da máquina. Num primeiro momento, a questão da Estética da Máquina não ficaria ligada apenas às técnicas artísticas tradicionais, o óleo e o bronze, mas apareceria de maneira mais coerente nos novos meios, também artísticos: o cinema, a fotografia ou os novos modos de construção de casas e de produção de objetos.

Mecânica, Matemática ou Geometria Absurda

A noção de Estética da Máquina também pode indicar a criação a partir da apropriação, feita pelos artistas, de sistemas gráficos conhecidos, tanto científicos como da vida cotidiana. Podemos perceber a criação de processos e sistemas poéticos em similaridade com as práticas racionais, mecânicas e funcionais ou com os meios de representação gráfica do cientista, do inventor e até mesmo do filósofo. Documentação e Representação Gráfica Tecnocientífica, Desenho Técnico, Representação Abstrata de Teoria e Conceitos. A Estética da Máquina propõe funcionalidades imaginárias. Funções loucas ou disfunções. Mecânica, Matemática ou Geometria absurda

A Arte Tecnológica e a Arte Contemporânea

Um das questões da Arte de Agora diz respeito à convivência entre dois mundos, aparentemente distintos. Dois mundos de discursos auto-proclamados e legitimados por suas instituições, a saber: a assim denominada Arte Contemporânea, que é aquela dos museus, galerias, feiras de arte e bienais; é a arte que é validada na documenta de Kassel e na Bienal de Veneza, na Art Basel e na Arco, pela Tate e pelo Guggenhein; a segunda é a vertente tecnológica das artes, que aqui chamaremos de Arte Tecnológica, dos centros de pesquisa e festivais e cujo desenvolvimento se entrelaça com a arte do século XX, vinda até os dias de hoje em nomes como artes numéricas, artes multimídias, artes eletrônicas, arte high-tech, new media art. É a arte do Media Lab e do ZKM. Do Ars Electronica e do transmediale. Por um lado você tem a crítica da arte contemporânea, feita pela Arte Tecnológica, de que a arte contemporânea seria uma arte tradicional e de que a arte mais avançada de nossa época seria a dos “new media”. Do outro lado temos a crítica da arte contemporânea sobre a Arte Tecnológica, de que essa arte seria apenas uma traquinagem da máquina, de um deslumbramento sobre o que é tecnológico, em um decréscimo de poesia, artisticidade ou profundidade. Dois discursos diferentes e que já não dão mais conta da produção da Arte de Agora.

A Arte de Agora

A Arte de Agora não fala da evolução dos estilos nem da eleição do estilo único, mas do Estilo entendido como um Projeto Poético de Cada Artista. A Arte de Agora é direcionada ao que está sendo feito agora. É uma arte do presente, por isso dialoga poeticamente com o mundo em que vivemos, não só em termos de reflexo. É uma arte que opera sobre o mundo e com o mundo. Arte de Obras que são Puro Funcionamento ou que contam uma História de Objetos Funcionando

A Imagem do Funcionamento

As qualidades mais diagramáticas e esquemáticas - que fazem a Obra ter um Funcionamento - da Estética da Máquina estão presentes em vários artistas do século passado, independente de Movimentos ou nomeação de períodos. Quando você escolhe algum ponto de um Movimento - aqui entendido de uma forma mais ampla - ou de um artista, você reafirma a produção anterior. Elege-se essa produção através de uma afinidade. Os Objetos funcionam em um Projeto Poético, conforme princípios de analogia e ressonância, em um sentido mais vasto de poesia: poesia problemática, poesia de pesquisa. Assim, o sentido de determinada produção artística, quando passa para determinado tempo presente, é tão mutante quantos os traços transformativos que ela permite indicar numa arte futura.

O Funcionamento da Arte de Agora possui uma imagem similar a várias outras imagens da arte do século XX: a multiplicidade do romance não-linear; a quebra do ponto de vista único da perspectiva clássica; o projeto poético sincrônico; a idéia de obra aberta, interpretativa, modular, participativa ou interativa; o rizoma e o diagrama/ máquina abstrata como metáfora para a sociedade contemporânea e a arte; a relação da estética da máquina com a absoluta inter-relacionalidade do mundo; a colagem em seu sentido mais amplo (sampler, cut-up, ready-made, assembrage ou ctrl+v/ctrl+c); as mônadas e a constelação; le livre e as parole in liberta também contribuíram para uma poesia de estrelas/ peças de máquina. Também as ligações entre a estética dos sistemas e a arte desmaterializada no anos 70. Não uma História da Arte de quem precedeu quem, mas a imagem de uma História da Arte de Pontos Luminosos, de Obras e artistas, que num determinado contexto, ou sob determinado conceito, se evidenciam ou recuam. Não uma sucessão de movimentos, mas vetores de idéias que se ligam.

O Novo Novo

Evidencia-se hoje a aceleração da obsolescência do que é o mais alto grau da tecnologia. Essa aceleração é verificada também, num sintoma de presentificação, no fato de que tudo atinge a velocidade no meio, ou na constatação de que a loucura está no meio do rio. Nem passado nem futuro: só presente. Podemos entender a Estética do Funcionamento a partir de sua semelhança com o modo múltiplo, complexo e fluido de nossa época. Ao mesmo tempo em que há uma propaganda generalizada da conectividade e da interconexão, cada vez mais nos isolamos e esquecemos. Podemos até montar um coletivo, mas a especialização das artes chega ao micro: cada artista é um movimento e um manifesto. Na mesma medida em que é afirmado o apagamento ou a dissolução do artista na multiplicidade de artistas, signos no multitudinoso, reafirma-se a poética de cada um, suas posições sobre o passado como pontos luminosos da linguagem anterior, suas escolhas. A criação não se dá como uma revisão do passado, pastiche ou paródia, mas acontece com a transformação do passado, tendo em vista o espírito de nosso tempo.

A noção do Novo transforma-se: já não é o novo da vanguarda, mas o problema do Novo presentificado. O Novo provém de uma nova noção de prática artística como Pesquisa. A Estética do Funcionamento é tanto o que é exibido da Obra de Arte como o Projeto Poético (Linhas de Pensamento que vão construir o estilo de cada artista). A Imagem da Máquina de Agora é a própria Interconectividade. O Objeto que funciona não é um ready-made e não é necessariamente relacional, participativo ou interativo. E nem só o processo faz funcionar. Uma escultura em bronze ou um quadro a óleo também podem ter um Funcionamento.

A Estética do Funcionamento

Do mesmo modo que noções como belo e história não tiveram tanta importância para o período das vanguardas, também a noção de Estética da Máquina não funciona mais para a Arte de Agora, já não nos diz muita coisa. O que ficou dessa máquina foi o Diagrama. Toda máquina antes de ser máquina é um problema, um diagrama ou um desenho mecânico. Da mesma forma, um quadro cubista faz funcionar diversos pontos de perspectiva de uma mulher ou guitarra. O grande vidro de Duchamp sugere uma História a partir do Funcionamento de vários Objetos Maquínico-Sexuais. O Objeto não é só Ready-Made ou Objeto-Técnico. A Obra de Beuys faz funcionar alguns Objetos-Matérias (a cera, o feltro, a cruz, a aula, o Diagrama, o coiote) numa mitologia ou alquimia (História). A História é a Obra Toda do Artista ou A Obra Toda do Artista em uma Obra. Uma Obra de cera ou coiote se liga a todos os outros Objetos. Os vetores, linhas tracejadas e setas de Klee tornam o invisível visível, fazem funcionar uma visualidade. Da mesma forma os rabiscos e nomes que se ligam em Cy Twombly contam uma História, fazem funcionar abstrações e rascunhos como Objetos.

Percebemos então que a Obra de Arte não precisa ser tecnológica para ser diagramática ou maquínica. Existem certas produções tanto da Arte de Vanguarda como da Arte Agora que possuem um Funcionamento em sua composição. A produção do sentido da Obra de Arte (História, Estilo ou Constelação) acontece a partir do Funcionamento de determinadas partes. Estas partes podem ser mônadas, peças de máquina, colagens, tags etc. Cada parte tem um significado ou uma função na Obra. Essas partes são Os Objetos e A História é o conjunto de Objetos funcionando. A História pode ser tanto o Estilo de um artista específico - Constelação que cada artista cria a partir do processamento de Objetos de outras Constelações em um Projeto Poético-  como o Funcionamento - Composição e Diagramação - de uma Obra de Arte específica.

Paris, 20 de fevereiro de 2009